quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Desabafos de um moribundo (ler mais)

Por Anónimo

Recentemente recebemos este texto onde é feito um desabafo sobre o estado do nosso hospital. Achamos que o seu autor não se importará que o mesmo seja publicado.
“Desabafos de um moribundo
Escrevo estas linhas depois de ter sido fulminado com a notícia de que tenho um cancro nos pulmões já espalhado ao fígado.
Escolho o anonimato por medo de ser mal tratado ou da minha família poder vir a sofrer retaliações. Não será difícil descobrir quem sou. Nesta terra tudo se sabe... Mas a razão do meu desabafo é devida ao facto de só agora ter sentido na pele, do modo mais arrepiante, que o maior valor que temos é a saúde e que, nesta. Ilha que tanto amo, a saúde tornou-se um negócio sórdido que despreza qualquer réstia de dignidade humana.
A administração da Saúde tem por base o enriquecimento de vários protagonistas não sendo nenhum deles a pessoa doente. Nesta Ilha a clínica privada limita-se aos consultórios, assistência a lares de idosos, convenções com algumas Instituições como os Bombeiros, as Touradas, Forças de, Segurança, a Clínica da Praia da Vitória e pouco mais. Em qualquer dos casos os rendimentos são parcos de modo que a grande fonte de rendimento é o Hospital. O Hospital funciona como extensão da clínica privada, seja para operar doentes, seja para realizar análises, exames, ou mesmo para engrandecer o ego como a criação do Instituto de Genética, Se compararmos os custos que este instituto acarreta com os benefícios para a população, facilmente entendemos a sua inutilidade. No Hospital o grande objectivo dos seus funcionários é arranjarem esquemas que aumentem os seus ordenados de modo substancial. E o grande esquema é as horas extraordinárias durante a carreira normal e a realização de contratos após a reforma. Outro esquema, que só dá para alguns, é o Serviço de evacuação de doentes. Deste Serviço fazem parte médicos e enfermeiros que ninguém sabe como são seleccionados e que escolhem horários onde acumulam as duas tarefas. Não é possível estar em dois sítios simultaneamente. Por isso é normal interromper-se o trabalho no Bloco Operatório para realizar uma evacuação. Há doentes com cancro que vêem a sua cirurgia adiada para o Anestesista ir evacuar um doente com uma dor abdominal da Ilha de Santa Maria para S. Miguel. Um dos enfermeiros, o Enfermeiro Brasil, que faz parte deste grupo, já teve um enfarte com 3 paragens cardiorrespiratórias, sem condições físicas, e continua a fazer evacuações. Em relação às horas extraordinárias o grande objectivo é conseguir ter uma prevenção total, ou seja, todos os minutos do dia serem pagos a 50% do valor da hora extraordinária. O único dermatologista do mundo que tem uma prevenção mora aqui, na Terceira, o Dr. Elias Ribeiro. Para se ter uma ideia, O salário sem prevenção são 5000 euros e com prevenção são 15000 euros, líquidos. Todos os médicos de qualquer Hospital sabem que urgências de Dermatologia não existem. No Serviço de Pediatria criaram-se duas prevenções: uma para atender ao Serviço de Urgência e outra para dar assistência aos recém-nascidos. Na prática fica apenas um Pediatra de chamada mas assinam-se duas folhas diferentes para tudo ficar com melhor aspecto. Há especialidades onde certas patologias são pura e simplesmente ignoradas como na Ginecologia e Obstetrícia. Neste Serviço, dirigido pela Dra. Maria Armas a ginecologia não existe. As doentes são arrastadas em consultas até chegarem a uma situação em que pouco já se pode fazer para além de se resignarem com a morte iminente. Nos casos mais flagrantes, ou seja pessoas que podem protestar, pedem ao Dr. Paím para as operar ou então, através do Serviço de Oncologia são enviadas para o continente, quer para o IPO, quer para instituições privadas. Nos outros casos, são-lhes marcadas consultas que vão sendo adiadas de forma sistemática de modo a não terem uma lista de espera superior a 3 meses. As redes de conexão são simples. Os Directores dos Serviços de Obstetrícia e Oncologia são irmãos. A Directora do Serviço de Anatomia Patológica esposa do Director do Serviço de Oncologia e irmã do Director do Serviço de Dermatologia. E de tudo isto a Administração do Hospital e o Secretário da Saúde têm conhecimento; foi esta administração que atribuiu a prevenção à Dermatologia, que autoriza os pagamentos dos tratamentos em Instituições privadas, que celebrou contratos com médicos já reformados como o Dr. Rocha Lourenço, o Dr. Vasco Aguiar e o Dr. Alberto Rosa, que autorizaram a deslocação periódica dos Drs Brasil Toste e João Martins, do Serviço de Otorrinolaringologia, a S. Miguel, para realizarem consultas e operações, sendo pagos por doente, e sem descontarem um minuto no horário normal do Hospital de Angra. Também aqui as Conexões são simples: o Sr. Secretário quando era apenas Clínico Geral, fazia um banco à sexta-feira. Mais do que o dinheiro que ganhava era um modo de ter acesso aos meios do Hospital para os seus doentes da privada. A chefe de equipa de sexta-feira era a actual Directora do Hospital que é esposa do Dr. Brasil Toste. Em relação ao Dr. Paím, o caso é mais caricato. Pessoa inconformada por natureza, criou muitos inimigos quando foi Director do Hospital. Um dia o azar bateu-lhe à porta; uma doente teve uma hemorragia de difícil controlo durante uma intervenção e morreu no pós-operatório apesar de ter sido evacuada para S. Miguel e depois para Lisboa. O irmão da doente, o Engenheiro Data Franco, instigado pelo Dr. Duarte Soares (que esteve na sala de operações mas tentou por todos os meios apagar esse facto) e pelo Dr. Jácome Armas (que lhe forneceu pormenores do que se passou em S. Miguel e Lisboa) recorreu aos tribunais documentado com informações compiladas pelo Dr. Carlos Lima e pelo Dr. João Leal. O caso arrastou-se durante 7 anos em tribunal com despesas que ultrapassaram os 125000 euros. Durante este período o Sr. Secretário nomeou o Dr. Jácome Armas para Director Clínico apesar de ter tido conhecimento do abaixo' assinado em que 90 % dos Médicos do Hospital pediam a continuidade do Dr. Mário Toste. O período na Direcção Clínica foi Curto, mas suficiente para, numa manobra rocambolesca, nomear o Dr. Paim Director do Serviço de Cirurgia Geral e conseguir pôr sob a alçada do Hospital o Instituto de Genética cuja utilidade e necessidade não se compreendem e tem gastos astronómicos. Tudo isto por trás da fachada de conseguir uma máquina de litotrícia, abençoada pelo clero e inaugurada pelo Presidente do Governo Regional, que actualmente só funciona uma vez por semana e trata apenas 3 doentes por semana. Como se imagina o Dr. Paim ficou reconhecido ao Dr. Jácome prestando-se a dar todo o apoio à sua irmã e a população encheu o peito com orgulho por ser a primeira Ilha a ter tal Máquina. Claro que ainda hoje há pessoas que acordam de noite, a suar, com medo que o Dr. Paim descubra toda a verdade. Ainda em relação às prevenções assiste-se a situações caricatas como haver um único especialista nos cuidados intensivos, com mais de 60 anos, hipertenso, diabético e com problemas cardíacos, contratarem-se especialistas de endocrinologia, oncologia, anatomia patológica, radiologia, bem pagos, por doente, enquanto se oferecem contratos ridículos aos recém especialistas que, ao abrigo do protocolo, vêm trabalhar para a região mas acabam por voltar para o continente onde são melhor remunerados e respeitados. Tudo para manter inalteradas as horas extraordinárias dos especialistas do costume. Ou ainda o caso das análises clínicas em que o Director do Serviço trabalha em exclusividade mas desvia os exames para a privada onde tem laboratórios no nome da mulher; tudo legal, talvez, mas muito pouco ético. Ou ainda o contrato com um Cirurgião Plástico que faz sobretudo cirurgia estética enquanto o tratamento da obesidade mórbida não passou de um ensaio. Ou ainda, enfim, muito haveria para Contar. Penso que uma qualquer entidade reguladora da saúde deveria fiscalizar o nosso Hospital de modo a impor-se a legalidade mas, muito mais importante, permitir a sua abertura a gerações mais novas, sem vícios, de modo a valores como Humanidade e respeito pelo Ser Humano Doente serem uma realidade. Já não terei tempo para esta luta mas viverei o resto do meu tempo com a esperança de que alguém se comova e lute por estes princípios. Bem haja.”

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