sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O paraiso que temos (ler mais)

Por Manuel Pereira
Os Açores continuarão por mais quatro anos a ser um verdadeiro paraíso. Nesse paraíso as pessoas vivem felizes, a economia apresenta índices de crescimento mais elevados do que no resto do país, o desemprego está muito abaixo da média nacional. Tudo vai bem e recomenda-se. Infelizmente isto não passa de slogan, muitas vezes repetido, mas que não mostra a verdadeira situação vivida nos Açores.
O paraíso de que se fala infelizmente não é para todos, mas para apenas uns quantos que continuam a achar que os políticos devem continuar exactamente onde estão, enquanto as vidinhas que levam também continuarem na mesma:
Os senhores agricultores vão mantendo algumas máquinas agrícolas apenas para usufruírem do gasóleo agrícola a metade do preço. Claro que antes do fim do ano não vão conseguir gastar todos os litros atribuídos e vão procurar vender a conhecidos e amigos. Estes vão-se dirigir aos postos de combustíveis nas suas viaturas, vão encher os depósitos e apresentar os cartões dos seus amigos agricultores, para também poderem ter o gasóleo a metade do preço. Os senhores políticos sabem que isso se passa dessa forma, mas o que irão fazer para corrigir a situação. Melhor é deixar as coisas como estão, pois a agricultura é uma área muito desfavorecida, com as secas, as chuvadas, os ventos fortes, o nevoeiro, a geada e enfim outros fenómenos climatéricos. Pois é, lá vão votando em quem lá está e é bom que tudo continue assim. Não queremos grandes operações de fiscalização da GNR ou de outras autoridades nacionais que nos venham dizer como agir. Postos de combustível específicos para abastecer máquinas agrícolas? Coloração do gasóleo agrícola? Operações regulares de fiscalização? São tudo coisas que nos Açores não funcionam. Não queiram importar para cá as soluções do continente. Cá nós temos as nossas especificidades constitucionalmente consagradas. A agricultura nos Açores apenas diz respeito ao povo açoriano, ou melhor aos açorianos. Deixem a autonomia funcionar.
Os senhores da construção de obras públicas, gabinetes de projectistas, de fiscalização e engenheiros civis também vão continuar a gostar de viver as suas vidinhas no paraíso dos Açores. Vão poder continuar a apresentar deliberadamente orçamentos mal calculados porque na região os trabalhos a mais continuarão a poder representar 25% do total da obra. Pois é, os mesmos senhores que dão gasóleo à agricultura, também acham que a lei do continente, onde os trabalhos a mais não podem ultrapassar os 5%, não se deve aplicar nos Açores. Aqui estas matérias são tratadas pelos açorianos. Devemos deixar que a autonomia funcione. Quando alguém perguntou ao nosso governante máximo quais os motivos que levaram a não aplicar o limite dos 5%, tal como se prevê a nível nacional, a resposta foi mais ou menos essa: sabe, a região tem dificuldades várias, é uma região que apresenta custos que não existem noutros locais. Só nos apetece rir. Vivemos mesmo num paraíso. Então os custos acrescidos que a região tem já não se encontram previstos no orçamento apresentado? Ainda existem outros custos? Quais senhor governante? Diga-nos quais? Serão certamente muitos dos custos de manter este paraíso, tal como está.
Existem outros senhores que também irão continuar mais quatro anos a viver neste paraíso, a começar por uma certa classe de políticos que encara a liderança partidária como um farto enquanto se está na oposição. Fica-se sem tempo para jogar à bola com os filhos, fica-se sem tempo para cuidar da vida. Que grande chatice.
Nesta última campanha eleitoral, alguém ouviu algum dos líderes dos partidos da oposição criticar a falta de controlo na atribuição do gasóleo agrícola. Nem uma palavrinha. Alguém ouviu a oposição falar da excessiva permissividade dos trabalhos a mais das empreitadas de obras públicas? Pois aqueles senhores, que andaram nos últimos dias a prometer tudo a todos, a dizer que foram os que mais trabalharam na assembleia legislativa, a dizer que conseguiram muitas coisas, a denunciar os abusos no rendimento social de reinserção, não querem que nada mude na vidinha dos senhores agricultores. Contam com eles para que também as suas vidinhas continuem um paraíso.
Daqui a quatro anos vamos ver se quem ficou em casa no dia das eleições encontra motivação para alterar alguma coisa nos Açores. Até lá vamos vivendo no paraíso que temos.

2 comentários:

Anónimo disse...

E o hiper tem o monopólio da Terceira, fazendo os preços que quer e lhe apetece...ainda agora com a descida do IVA os preços acabaram por...subir....E é ver o mesmo artigo com um preço diverso em Angra e na Praia....Enfim..é um must de roubar...

E a IRAE, por onde anda? Que fiscaliza? Alguém conhece os seus planos e relatórios de actividades? Ou só existe, e os seus trabalhadores, para irem encher mensalmente á borla os carrinhos de supermercado como sucedeu no continente?

E o Governo o que faz? Sabendo que o "Belmiro Sonae Lda" tem o monopólio dos preços, que transporta tudo para cá em barcos seus e de mais ningúem,,,o que faz para o evitar? É um "dolce fare niente"....

Tibério Dinis disse...

Excelente blogue, agora a que o descobri, seguirei atentamente.

Cumprimentos