terça-feira, 4 de novembro de 2008

CTT combatem a pobreza. Com anotação (ler mais)

Por Paulo Jorge Gomes
Alguém, certamente com as melhores intenções, deu-se ao trabalho de enviar para a minha caixa de correio electrónico a seguinte mensagem:
"CTT abrem a sua rede à solidariedade
Combate à pobreza
Os CTT vão pôr a sua rede à disposição do combate à pobreza e à exclusão social. A partir de 1 de Dezembro próximo, os Correios de Portugal põem em marcha um projecto que, durante os próximos meses, permitirá a qualquer pessoa ajudar quem mais precisa de forma gratuita.
Este projecto é uma iniciativa dos CTT inscrita na sua política de responsabilidade social. Surgiu da constatação de que ninguém como os CTT tem capacidade para chegar a todas as localidades e a todos os habitantes do País.
Por isso, os Correios vão fazer um envio massivo de um folheto informativo por todas as casas do País. Esse folheto, que será acompanhado de um saco específico para o transporte dos donativos, informará a população sobre as instituições de solidariedade aderentes ao projecto e que tipo de bens necessitam.
Com esse esclarecimento em mente, bastará a qualquer pessoa deslocar-se a uma das quase 1000 Estações de Correio existentes de Norte a Sul do País com o seu donativo. Uma vez lá, ser-lhe-á fornecida gratuitamente uma caixa de transporte em cartão. O autor do donativo apenas terá de encher a caixa e escolher a instituição destinatária, entre as várias possíveis, sem precisar de indicar uma morada. Os Correios tratam do transporte e da entrega, de forma totalmente gratuita.
A lista de instituições de solidariedade social aderentes é uma lista aberta. Neste momento, os CTT estão em contacto com algumas dezenas de instituições, de carácter nacional e local. Está já confirmada a adesão de instituições como a Abraço, ACAPO, Acreditar, Ajuda de Berço, Ajuda de Mãe, Aldeia de Crianças SOS, Associação Portuguesa de Surdos, Casa do Caminho, Casa do Gaiato, Centro Helen Keller, Comunidade Vida e Paz, Cruz Vermelha Portuguesa, GIRA, FENACERCI, Liga Nacional Contra a Fome, Refúgio Aboim Ascensão e Associação Sol. Outras serão anunciadas nos próximos dias.
Os bens elegíveis para doação dependem das necessidades de cada instituição e das limitações logísticas e incluirão bens como roupa, calçado, agasalhos, artigos de higiene, brinquedos, produtos de limpeza, pequenos electrodomésticos ou de entretenimento, entre outros.
Para esta grande iniciativa de carácter nacional, os Correios vão disponibilizar não apenas os seus voluntários, de um universo de 16 mil trabalhadores, como a sua rede: quase 1000 Estações de Correios, 370 Centros de Distribuição Postal e 3702 veículos de transporte que, todos os dias, percorrem cerca de 240 mil quilómetros.
Este projecto dos CTT é complementado por uma iniciativa protagonizada por uma empresa detida a 100% pelos CTT, a PayShop, e que permite que qualquer cidadão faça donativos em dinheiro, a partir de um euro, em 4500 locais de todo o País: 3500 agentes PayShop e quase 1000 Estações de Correio.
É convicção dos CTT – Correios de Portugal que esta iniciativa permitirá democratizar a solidariedade e eliminar barreiras geográficas."
Uma questão prévia: atestei a veracidade da mensagem na página web da Correios de Portugal
http://www2.ctt.pt/fewcm/wcmservlet/ctt/grupo_ctt/imprensa/imprensa/Imprensa123-CTT_combatem_a_pobreza.html). Não se trata, portanto, de um boato (hoax), como tantos outros que povoam no mundo virtual, alguns com anos de existência, mas que os meus amigos mais preguiçosos insistem em não se dar ao trabalho de confirmar a sua autenticidade. A Google já sabe a pouco.
À primeira vista, a mensagem revela um altruísmo empresarial comovente. A Correios de Portugal, vulgo CTT, é mesmo uma empresa boa. Tanto pelas criancinhas. Tanto? De uma empresa monopolista? Espera... analisemos à lupa.
Sem prejuízo da ajuda às criancinhas - meritória, sem dúvida - porque não perguntar se esta campanha e o recurso da mesma, justamente os singelos meninos (contra os quais nada tenho), não se traduz num meio para atingir um verdadeiro fim. Trocando por miúdos, literalmente, se não se trata antes de uma fantástica publicidade da Correios de Portugal e da sua PayShop (homónima da PayZone e contra à qual também nada tenho), concorrente de alguns dos serviços prestados pelos ATM da SIBS.
Eu amo a concorrência, não me interpretem mal, só não gosto é de pessoas cínicas, incluindo as que têm personalidade jurídica colectiva.
Também se pode conjecturar filosoficamente. O pedido da Correios vai na esteira da apologia da reificação, a defesa da coisa, a ostentação do objecto. Isto não é seguramente pobreza, a não ser de espírito materialista. Lipovetsky explica isso muito bem no seu «Crespúculo do Dever», e para o qual remeto. É evidente que as crianças não devem chegar ao ponto de ser necessário andarem nuas por não terem roupa. Mas não nos confundamos, por favor. Não é dos meios que estamos a falar, mas sim dos fins. Para além disso, felizmente em Portugal as criancinhas (ainda) não se passeiam nuas, a não ser nas praias ou, pior, na piscina. Querem ajudar criancinhas a terem um Natal mesmo mesmo feliz? Sugiro África, porque não? Dinheiro à Correios não falta; para além disso, em África os meninos andam mesmo nus e com fome; depois, bastaria uns contentores, a Correios pagaria o transporte (é baratinho) e ainda por cima sem todos os custos logísticos da operação proposta pela Correios. E no fim, o que realmente importa, centenas de crianças e famílias teriam um Natal verdadeiramente feliz. Ah! estupidez minha: assim não se consegue fazer publicidade (e quem sabe incutir hábitos nos utilizadores) relativamente à generosidade da empresa Correios de Portugal e à sua associada PayShop.
Um exemplo: em Bissau, o ordenado mínimo é de 30€. Façamos as contas de um «cabaz»: 1 litro de leite custa 1,5€ = 5% do ordenado + 1 botija de gás, 15€, embora pressuponha a existência de um fogareiro = 55% do salário + 2 pacote de arroz, 3€ = 65 % do salário + 3 pacotes de sal (pois não há frigorífico) 1,5€ = 70% do salário + 2 latas de feijão encarnado, 3€ = 80% do salário. Em suma, para 30 dias, uma família tem na sua dispensa para consumo: 1 litro de leite, 1 botija de gás, 2 pacotes de arroz, 3 pacotes de sal para temperar e conservar, 2 latas de feijão. Restam 6€, 20% do salário, para quê? A pobreza magoa tanto quanto a frustração de ver a ostentação de hipocrisias. Utilizar actos nobres como finalidades de propaganda comercial é ser hipócrita. Pior, prova que o «Natal» do Homem de Barbas e pijama vermelho é simplesmente o que ele simboliza: uma importação de uma marca (Coca-Cola); uma janela de negócio, ou uma oportunidade de publicitar um serviço ou produto, neste caso a PayShop (notaram que a empresa é detida 100% pelos CTT? Se não fosse, prestava?). Isto para mim não é altruísmo, é hipocrisia: um tributo dos vícios próprios às virtudes alheias.

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