quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ode aos patos (ler mais)

Por Paulo Jorge Gomes, In Diário Insular (6.11.2008)
É um tema recorrente, de que não gosto pelo seu fel, mas que vem a propósito: o refluxo matinal do dia seguinte, o que dá a glória aos vencedores e a vergonha aos vencidos, ou vice-versa, consoante a simpatia partidária ou pessoal do encomiástico. Salvo raras excepções, os refluxos atestam, porém, ressabiadas sensações ou subliminares tentativas de sedução. Excluo, obviamente, os que jogam o jogo, os vencedores e vencidos, e quedo-me apenas na trupe em seu redor.
Nada tenho contra a política, entenda-se. É uma nobre função, por certo das mais antigas e congénitas à actuação humana (o homo politicus de que se fala). Quanto a quem a exerce, é uma função e sobretudo uma exposição que não invejo, de todo. Palavra d’honra.
“Política”, ensinou o filósofo, para além da arte de governar é primeiramente a actividade competitiva na busca do poder, pois a primeira pressupõe aquela segunda – só se pode zelar pelo interesse público, aplicar esta ou aquela reforma, seguir eficazmente uma ou outra ideologia, depois do acesso ao poder. Não há, pois, confusão possível entre o técnico e o habilidoso candidato político. São esferas diferentes, incomparáveis, mas apesar de tudo comensuráveis. É neste capítulo, o da comensurabilidade, que peço 5 minutos da vossa atenção.
A política, como em qualquer outro processo humano, utiliza uma linguagem que tanto tem de sedutora (tal como a publicidade) quanto de predadora (pois compete para vencer). A sedução, na esteira de Baudrillard, pretende anular as diferenças e criar identidade, afastando o atrito, do mesmo modo que acontece numa típica sedução com um matiz sexual – será tanto melhor, quanto menos explícita. Em todo o caso, a sedução também tem algo de predador, nem que seja pela exclusão de terceiros. Inclusão de uns, por exclusão de outros.
Logo, não faz sentido confundir o discurso político com outras linguagens, nomeadamente técnicas, assentes em outros géneros (judiciário, poético, etc.) ou noutras lógicas (sobretudo quanto à questão que coloca). Política é publicidade, conquista, encantamento, e decisão, que será tanto melhor quanto menos apercebida. Pelo que, em bom rigor, a figura do político “sério”, aquele que menos admite sê-lo (político), que se envereda na ideia do profissional, do académico, do técnico, é em boa verdade um hino à linguagem sedutora. É auto-referencial, pois atesta-se como político através da sua pretensão em não o ser.
Quanto a mim, desconfio mais de quem está na política não estando. Um exemplo? O gerado mas não criado veto político. Discuta-se o que se quiser discutir do ponto de vista jurídico, o veto político será sempre isso mesmo, uma opção ou decisão política, ainda que juridicamente prevista. Tollitur quaestio.
Daqui resulta pelo menos duas consequências. A primeira – e dirijo-me aos refluxos – é a de que não vale a pena bater no ceguinho, mas saber que ele, o ceguinho, efectivamente não vê. Desconstruo a metáfora: de que vale as acusações sobre a qualidade da classe política, a exequibilidade das promessas eleitorais, e todos os outros sucedâneos, se isso é política? Quando Cavaco Silva, há alguns anos, mencionou que a lei económica da má moeda afastar a boa moeda seria aplicável à classe política, ele não se encontrava em Belém. Das duas, uma: ou o seu regresso atesta a sua própria afirmação (de uma forma ambivalente, diga-se); ou semelhante lei económica é altamente falível. Eis um exemplo da mistura de planos, que nenhuma relação permite, pois a Lei de Gresham não é transponível para a política, por aqui ser incomensurável, tal como Pascal o afirmou nas suas «razões que a Razão desconhece».
Em segundo lugar, os técnicos e afins, candidatos a políticos ou com ambições dessa natureza subliminarmente reveladas, não deixam de ser mais abjectos ou incapacitados do que aqueles que pretendem criticar. Critique-se, sem dúvida, mas com a devida categorização e sem a confusão de esferas, pois a retórica, incluindo a política, só armadilha aqueles que a pretendem ignorar ou por intrépida estupidez.
Opinião muito pessoal, eventualmente muito errada, mas que sigo doutrinariamente, é a de que a qualidade dos profissionais, académicos, técnicos, etc., é tanto melhor quanto menor for a gestação do seu talento em conluio com a actividade política. É que não basta dizer-se que se é a mulher de César Augusto; há também que parecer.

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