segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Escatologia de bolso (ler mais)

Por Paulo Jorge Gomes
Após uma grande civilização vem uma grande derrocada.
Depois dos fenícios, os enormes gregos. Assomou Cristo, que não chegou a tempo de salvar o império romano dos bárbaros – os gloriosos 15 séculos mereciam uma pausa. Lentamente se moldou um mapa mundi, entre fiéis e infiéis, consoante a perspectiva. A Europa foi rapidamente submersa por uma pestilenta Idade Média até à chegada do renascido Homem Vitruviano. Durante uma nova pausa foram dados “novos mundos ao Mundo” (nosso eterno devedor), comercializou-se pimenta e negros com a graça de Deus, até que acenderam as Luzes. Arrepiou-se caminho para as revoluções, de uma ex-colónia, primeiro, e uma grande nação, depois, hoje com papéis invertidos. Faltava poucos minutos para outra revolução com maiúscula: a Industrial. Passado o período de glória, exacerbaram-se os nacionalismos (onde fomos primeiros, teimámos em ser últimos), a artilharia foi para a rua, mas só até a democracia ser regra. Descanso merecido. Sem guerras e enfadados com idealismos de um lado e racionalismos do outro, os Estados saíram do torpor com a finança. Uns entraram no grémio, outros não, pois um clube que aceita todos como sócios deixa de o ser. A partir daqui o efeito borboleta deixou de ser hiperbólico, sobretudo quando um espirro dos E.U.A. constipou-nos a todos. Pugnou-se pelo Poder da Flor, substituiu-se pelo poder tecnológico, vitamina para o crescimento da embrionária mundialização, até vir a ser global. Entretanto, nascemos e os E.U.A voltaram a espirrar.
Muitos são os que auguram um regresso às origens, mesmo sem ter lido ROUSSEAU – em abono da verdade, não perderam grande coisa. Uns, prudentemente, não traçam cenários mas apresentam causas, demonstrando que a “socialização das perdas e privatização dos lucros” não é coisa moderna, ao contrário do que se apregoa. O problema é genético .
Outros anunciam longas emergências (deliciosa ambiguidade: cognato de «emergir» ou de «urgência»?) a partir do momento em que termine a base material do nosso modelo, o petróleo, pois mesmo com as renováveis esta fonte de energia não chega a ombrear com a produção do líquido viscoso .
Outros ainda, austeros mas sem excesso de paternalismo, apontam o dedo aos nossos maus hábitos, tal como fez o grego, ralhando que a virtude em excesso degenera em vício .
A prescrição dos críticos, uns mais outros menos enfatuados, recomenda a atenção ao que está para trás quando não se sabe o que se tem pela frente. Ou olhar mais para dentro do que para fora, a começar pelos bolsos. Seja qual for a receita, não há como fugir à evidência de que as gerações futuras estão hipotecadas pelos erros das gerações passadas. Cabe às actuais corrigi-los, embora suspeite que não será a geração doutrinada de que a igualdade e consequente liberdade são boas até ao limite de não interferir no nosso estilo de vida. Isto porque poucos são os desconfiam das virtudes de KANT .
Para o mundo ocidental, onde impera o débil individualismo direccionado para o crescimento do PIB, vale uma proverbial sentença africana, zulu, assente na conservação do grupo, que considero mais racional do que muitos textos académicos: «sou o que sou graças ao que todos nós somos» (umunto ngumuntu ngabantu). Para quê o crescimento de um país, de um império, de uma economia, sem qualidade de vida? De que vale o individualismo sem o grupo?
Não pense nisto. Aliás, não pense de todo. Feche os olhos, respire fundo, e atravesse a estrada.

i Sublime o artigo de ROBERT SKIDELSKY, «Where do we go from here? Propect Magazine, 154, Jan. 2009, disponível on-line.
ii JAMES KUNSTLER The Long Emergency, 2005, com tradução portuguesa.
iii BAUDRILLARD, La Société de Consommation, 2008, com tradução portuguesa, e A Violência do Global, disponível on-line.
iiii Excepto SCHOPENAUER, no seu Mundo como Vontade e Representação (Welt als Wille und Vorstellung) e na Metafísica dos Costumes (Metaphysic der Sitten). Mas antes dele, certamente HUME, SPINOZA e LOCKE, pese embora a tentativa de conciliação kantiana, ainda que tendenciosa. Um contemporâneo daqueles é SLAVJO ZIZEC, no seu Elogio da Intolerância, com tradução portuguesa.

1 comentário:

Manuel Pereira disse...

É como muita satisfação que damos as boas-vindas ao novo colaborador do Cidadão Angrense, Paulo J. Gomes. Saímos todos beneficiados com a sua participação.